28 dezembro 2007

Outro lugar fora de mim - parte 6


De sua poltrona passou a vigiá-la. Cabelos negros, extremamente lisos, vistos de costas não eram capazes de ocultar o brilho verde-mar-do-caribe dos seus olhos. "Flush". Se ela não sabia o que era isso, teria sérios problemas com a língua em Nova Iorque. Será que ela ficaria na cidade ou seguiria para outro lugar? Só em pensar em habitar a mesma cidade que ela, causou-lhe um arrepio. Poderia encontrá-la em qualquer esquina perguntando o que era "flush". Imaginou dificuldades piores com o "push".


Era alta. Sua cabeça sobressaía entre os ocupantes das poltronas que os separavam. Ficava constantemente olhando pela janela, talvez pensando que aquele mar lá embaixo tinha a cor de seus olhos. Pensou em levantar-se e ir até lá explicar-lhe os segredos do idioma de Shakespeare e dizer que poderia defendê-la dos infortúnios que a esperavam entre o East e o Hudson River, mas não. Permaneceu ali hipnotizado pelo novo objetivo de deste lado de sua vida: reencontrá-la.


Estava numa outra dimensão. Nem escutou os sinais para colocar o cinto. Precisou que a comissária viesse até ele para alertá-lo. Será que ela havia entendido? Pensou alto ao que o senhor ao seu lado resmungou: "Pardon?".


A aterrizagem foi suave e em pouco tempo todos já se erguiam de seus lugares. Não houve tempo hábil para aproximar-se e descer do avião junto dela. Uma horda de pessoas idosas - seria uma convenção da terceira idade? - enfilerou-se no corredor que, se corresse, levaria até ela. Viu-a erguendo-se - como era alta! - sorrir para as duas pessoas que compartilhavam a fileira - como era lindo aquele sorriso! - e feito princesa ter o caminho desobstruído para sua passagem. Eduardo sentou-se e aceitou seu destino.


Cinqüenta e oito velhinhos depois, pode levantar-se e deixar o avião. Na chegada à imigração percebeu que ela passou sem esforço e sem inglês. Não havia muitas perguntas que fizessem a mulheres lindas. Por sua vez, depois de quase vinte minutos de espera, teve que dar uma entrevista a uma senhora negra de meia idade, extremamente distante nas palavras e próxima num hálito de Mac Donalds recém admitido entre seus excessos volumosos do quadril.


Já havia perdido a esperança de revê-la - que idade teria, o que faria na cidade? - quando chegou ao ponto de táxi e a encontrou novamente.


- Que bom que tu chegaste! Estava te esperando! - disse ela num gauchês perfeito - Como faço para chegar à Quinta Avenida?

-continua-

parte 1

parte 2

parte 3

parte 4

parte 5

imagem daqui

18 dezembro 2007

Outro lugar fora de mim - parte 5


Ao contrário do que imaginava, a semana passou rapidamente. Conseguiu cancelar o contrato de aluguel, ligou para alguns conhecidos e enviou alguns pertences para a família, no Paraná. Seu vôo estava confirmado para aquela noite, sexta-feira. Chegaria no sábado em Nova Iorque, iria até o apartamento que a empresa reservava para novos contratados de outros países e na segunda-feira se apresentaria no escritório. Aproveitou as poucas horas que sobraram durante a semana para conhecer a cidade virtualmente, assim como a empresa. Pelo site que visitara seria o melhor lugar do mundo, com todos os benefícios e planos de ascensão profissional. Imagens de um escritório amplo, com vista para o Empire States. Depois de tantos anos, finalmente Eduardo estava com alguma perspectiva à frente. Lenice ia se apagando de sua memória à medida que ele se interessava mais pela aventura que decidiu embarcar.


Sua poltrona era a 38F. No meio do avião, poltrona central na fileira que ficava no meio da aeronave. Era realmente muito estreita e em ambos os lados duas pessoas acima do peso lhe deixavam mais prensado ainda. De um lado uma simpática velhinha que contou a vida de todos os filhos e netos durante boa parte da madrugada, até tornar-se antipática. Do outro um rapaz muito alto, de pernas compridas, que obrigatoriamente ficavam abertas e, por conseqüência com o pé para o seu lado. Não falou nada durante a viagem, mas pode ver uma enorte tatuagem no braço peludo, que dedilhava no suporte da poltrona alguma música que escutava no fone de ouvido.


Quando já era quase de manhã, levantou-se de seu lugar e foi até o banheiro. Estava ocupado. Esperou um pouco até que a porta se abriu e teve uma visão que deixou-lhe atordoado. Uma linda e loira mulher, quase tão alta como ele, talvez 1,80 m, no máximo dezoito anos, que lhe sorriu e confessou:


- Desculpe, moço. O que é "flush"?. É a primeira vez que viajo de avião...


Eduardo emudeceu por alguns instantes e, ao vê-la cerrar seu sorriso, abriu o seu.


- Não se preocupe... - Não conseguiu dizer mais nada.


Ela andou até sua poltrona que ficava na primeira fileira, de frente a parede, onde acomodou-se junto à janela e ficou admirando o sol nascer como uma menina no primeiro dia de férias.


-continua-


imagem daqui

19 novembro 2007

Outro lugar fora de mim - parte 4


De certa forma a saída da empresa foi frustrante. Imaginou que tentariam lhe fazer alguma proposta que mudasse seus planos, ou que perguntariam sobre seu futuro. O que ouviu de seu chefe é que ele já havia notado um certo desinteresse de sua parte pelo trabalho. Liberou-lhe na mesma hora, sem nem mesmo passar as tarefas para algum colega. Voltou a sua mesa, recolheu alguns pertences, transferiu alguns arquivos para o provedor particular, deletou algumas informações do PC e, antes mesmo de despedir-se dos colegas, seu chefe voltou à mesa num sorriso e pediu-lhe a carteira do convênio médico com um sorriso tão frio como o que dá a faxineira quando ela pede para limpar o seu lixo.
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Quis ligar para sua família para comunicar sua decisão e que não deveriam mais ligar para a empresa, porém a senha do telefone de sua mesa acabara de ser bloqueada. Despediu-se um a um e, na porta do grande salão onde as mesas alinhadas como um engradado estavam espalhadas, quis acenar para todos numa despedida. Em vão. Todos já estavam novamente envolvidos em emails, telefonemas, cafezinho ou, alguns, em conversas reservadas sabe-se lá sobre o quê.

Saiu do prédio, disse adeus ao porteiro, que ficou desconfiado da simpatia explícita, tão incomum nas grandes cidades.

Quando estava na rua, a uma quadra do mar, não resistiu e foi até lá. O tempo estava nublado e uma garoa disfarçava o Rio de São Paulo. Não. Hoje não era dia de nostalgias ou depressão. Tinha muito a fazer. Passou numa loja ali perto, comprou mais uma mala para juntar as que já tinha em casa, fechadas. Com a mala vazia, tomou um táxi e foi para seu apartamento. Talvez ainda conseguisse cancelar o contrato de aluguel, haja visto que recém o alugara desde que Lenice lhe deu um ponta-pé na bunda.

Sexta-feira era o vôo. Se fosse antes, melhor. Não tinha mais o que fazer por ali.

-continua-

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parte 2

parte 3

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imagem daqui



14 novembro 2007

Outro lugar fora de mim - parte 3


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- Alô? Boa noite, Dona Ester... Sim, sou eu, Eduardo... Tarde? Nem reparei... Desculpe. Lenice está? Não?... Que pena, precisava falar com ela... Ela volta que horas?... Viajando?... Paris? como Paris, ela morria de medo de de avião... Nem a Porto Seguro quis ir comigo!... Navio? Como, navio?... Transatlântico? Existe ainda?... Lua-de-mel?... Não, Dona Ester, nada importante. Desculpe acordar-lhe a essa hora.
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A noite foi longa. Não era um sentimento de perda que lhe abalava. Era mais, era misericórdia de si próprio. Não a amava ao ponto de chorar uma paixão perdida. Seu sentimento era de traição. Não no sentido de amor traído: era de não conhecer a pessoa com quem convivera por três anos. Nunca falaram em casar, embora já morassem praticamente juntos desde fevereiro retrasado. No carnaval, ela veio passar a noite no seu antigo apartamento em Ipanema e foi ficando. Quando viu, passou o tempo, já haviam se mudado para outro maior "onde ela pudesse ter seu estúdio". E, há duas semanas, ela o jogou porta a fora. Até sentiu-se aliviado, ele nunca faria isso e acabaria passando anos com ela sem dar-se conta. E ela, que nem de avião andava, estava agora trepando com outro em alto mar, rumo à Paris.

A manhã já se aproximava, e entre as caixas que nem havia aberto ainda, encontrou a sua carteira profissional. A mala de roupas de inverno nem seria aberta. Naquela manhã ainda, pediria demissão em caráter irrevogável. Na semana seguinte embarcaria para Nova Iorque. E se visse algum grande navio lá do alto, gritaria a todo pulmão que Lenice roncava, que seus quadros eram medíocres e que... e que... Poxa, Lenice, há quanto tempo você já dormia com esse cara?
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-continua-

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06 novembro 2007

Outro lugar fora de mim - parte 2


A semana passou correndo. Ultimamente, os fins de semana lhe pareciam longos e os dias de trabalho eram curtos demais. Logo estaria novamente sozinho em casa com saudades não sabia nem de quê.
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Na sexta-feira, antes de sair do trabalho, entrou a mensagem. Sim, seu currículum fora aprovado: "There is a job available matching to your skills", dizia em negrito.
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Nova Iorque. Preferia o Vale do Silício, Vancouver, Salt Lake City... Nova Iorque... Por quê não?
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Olhou no fundo da gaveta e lá estava seu passaporte. A viagem de trabalho de dois anos atrás a Miami para trazer aqueles chips indianos tinha servido para alguma coisa.
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Pensou em ligar para a ex-namorada. Talvez parecesse um ultimato. Diria que se ela não voltasse para ele, iria embora, que estava tudo arranjado... De quê adiantaria, pensou, ela tinha outro... mesmo assim ligaria à noite. Não que morresse de amor por ela, não por ela ter jogado seus planos escada abaixo, com sua escova de dentes, CD's, livros e até o anel de família que sua mãe tivera a audácia de dar-lhe quando esteve no Rio.
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There is a job available, leu de novo...
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Lenice, vou embora do Brasil... não adianta pedir... não, Lenice, agora é tarde... como Lenice? Quer voltar? Mas, agora... Como ir junto? Ah, Lenice... Tinha tudo planejado. Ligaria às dez. Assim ela não dormiria e passaria a noite pensando nele. Perfeito! Maquiavel reviraria no túmulo.

- continua -
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29 outubro 2007

Outro lugar fora de mim - parte 1


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Foi num fim de tarde, no trabalho, que recebeu aquele email promocional. Estavam selecionando profissionais com curso superior para trabalhar no exterior. Esteve por deletar mais um spam, porém seu dedo travou-se e não permitiu o descarte. Resolveu clicar no link e conhecer mais detalhes.

A proposta lhe pareceu interessante: salário, experiência, aventura. Lembrou-se da ex-namorada, que há duas semanas o trocara por outro; abriu a gaveta e olhou seu envelope de pagamento que, convertido em dólares, daria um terço do que estavam pagando; pensou nos seus pais que viviam noutra capital e, portanto, via pouco; amargou a memória com a constante aridez que eram suas datas festivas; tentou não pensar na depressão que volta e meia lhe roubava o sono.

Enviou seu curriculum na mesma tarde.


-continua-
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22 outubro 2007

No ar: bola de fogo - Capítulo 7


O beijo arrebatou o instante. O ruído da aeronave descendo tornou-se um zumbido distante. A boca quente e macia moldou-se à sua e seus olhos cerrados abriram-se para imagens coloridas: tinha os olhos na boca. Suas mãos abrigadas em Itamar deixaram-se envolver pelo carinho para depois, suavemente, subirem pelo braço até alcançarem a face que imediatamente tornara-se tão familiar. Sentiu que o avião tocava o solo, seu corpo balançava, mas permanecia presa naquele momento como se fosse eterno. Prolongaram-se os segundos até que uma curva repentina a fez abrir os olhos, pensar na filha em Porto Alegre dizendo"te amo", lembrar-se de sua mãe com seu olhar de zelo, e sentir que não haveria mais tempo para amar antes que tudo acabasse numa bola de fogo.

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Itamar sentiu que nunca havia sido feliz: felicidade era aquela boca na sua, aqueles olhos fechados que via junto aos seus, abertos e curiosos para não perder nada da cena que lembraria para o resto de seus dias. Sentia os lábios macios e envolventes que queria ter sempre junto de si. Arrepiou-se com a mão carinhosa que subia pelo seu braço até brindar-lhe com um toque suave em seu rosto. Teria sorrido se não estivesse ocupado com o primeiro beijo do resto de sua vida. Quando aeronave tocou em São Paulo, numa fração de segundos viu-se com ela entra os braços, saindo dali, tomando um táxi para começar a viver. Porém o avião não parou, continuou a invadir a chuva, a correr como se fosse um coração em disparada, e isso ele sabia o que era. Quando a curva jogou Joelma definitivamente sobre ele, não houve tempo de dizer que a amava. Viu-lhe aflita e entendeu o amor. Por trás de Joelma, via tudo correndo pela janela: faíscas, carros, o tempo. Lastimou todas as vidas que, como a sua, poderiam ainda ter vivido uma linda história de amor.
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06 outubro 2007

No ar: verdade - Capítulo 6

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O sol já se fora e o último clarão no horizonte iluminou a massa cinzenta que cobria a paisagem, antes que os pingos de chuva começassem a esconder a visão. Joelma teve um arrepio e seu corpo todo vibrou. Estavam se aproximando de São Paulo e chovia na Terra da Garoa. Itamar lhe segurou a mão e ela se sentiu abrigada em sua ternura. Uma onda de calor se espalhou pelo corpo e se acomodou no coração. Ela olhou ternamente para ele e falou o que sentia, sem importar-se em conter palavras. Nunca tivera relações relâmpago com alguém, mas logo que o viu sentiu como se sempre o conhecera e tinha urgência de amá-lo.

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Itamar a viu olhando à janela do avião e observou que seus cabelos lhe encantavam e quase os tocou. Sentiu um suspiro que combinava com a paisagem de fim do dia e reparou na grande formação de nuvens que encobria São Paulo na chegada e que em seguida pontilhou o vidro como se fossem lágrimas. Viu que ela estremeceu levemente e num impulso, sem sobre-aviso lhe segurou a mão. Ela se deixou acarinhar, virou o rosto para ele e sob os olhos mais sinceros que já viu em todo mundo e em todas as mulheres, recebeu as palavras sempre desejadas, muitas vezes repetidas sem emoção, ou que nunca são ditas. Ela abriu mais os olhos verdes inundados de mar, mordeu levemente o lábio inferior e libertou seu coração. Seria capaz de amá-lo como se estivesse à espera dele por toda sua vida.
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26 setembro 2007

No ar: planos - Capítulo 5


imagem daqui - O mesmo sol que iluminou o vôo 3054 da TAM antes de espatifar-se em São Paulo
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O sol que se punha era uma chama que inflamava o céu e atravessava a nave onipotente. Ficava por trás de Itamar e Joelma abrigou-se em sua sombra para ouvi-lo falar. Ele falava de planos que tinha para o futuro, mas ela só queria saber que planos ele teria para essa noite. O sol teimava em fugir de trás de seu rosto e inundava seus olhos atentos. Ela não ousava interromper sua voz e flanava seus pensamentos junto aos dele num delírio que ainda não conhecera.
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Itamar sentiu a presença imponente do sol que se escondia no horizonte e entrepôs-se entre ela e o astro, sem deixar de vez por outra deixá-lo inundar os olhos dela para vê-los brilhar em seu verde esmeralda, feito o mar nos trópicos. Falava das férias que gostaria de passar no Nordeste do país e preferiu não confessar que já os imaginava juntos andando na areia branca e comparando a cor do mar com seu olhar. Então diria que planejara o passeio naquele entardecer entre Porto Alegre e São Paulo quando se conheceram. Conteve-se para não beijá-la de surpresa; esperava mais que um instante. Dela queria todos, até o último minuto de sua vida.

17 setembro 2007

No ar: crepúsculo - Capítulo 4


imagem daqui - Porto Alegre, de onde partiu o vôo 3054, da TAM.


Sentada na poltrona rente à janela, pela primeira vez ela não temeu a decolagem. Seus olhos estavam hipnotizados nos dele. Via tudo: o faiscar em sua direção, o dilatar das pupilas quando ele sorria, a barba cerrada que delatava uma manhã apressada, a forma como gesticulava tornando mais encantadora cada passagem que lhe contava. Do alto de Porto Alegre, ainda deu uma última olhada para o chão onde com certeza, neste instante, sua pequena menina olhava para céu e apontava: "dorme com Deus, mamãe!".



Estava ao lado dela já se passavam trinta minutos. Na pequena escotilha o céu sumia e dava lugar a um horizonte em pôr de sol. Falou-lhe que fora a primeira coisa que lhe contaram sobre Porto Alegre quando veio parar ali. O rio derretendo o sol, queimando o céu em tonalidades rosadas, vermelhas, nas mais lindas que é possível anoitecer. Os olhos dela guardavam lágrimas que não eram tristes: era o brilho líquido de quem presta atenção e devolve em sorrisos e comentários inteligentes. Chegou a querer segurar sua mão, para sentir se a textura era exatamente como parecia que pudesse ser. Enquanto ela virou para espiar a cidade e falou-lhe da filha, quis tê-la para sempre perto dele ao adormecer.

20 agosto 2007

No ar: palavras - Capítulo 3

imagem daqui Aeroporto Internacional Salgado Filho, Porto Alegre, de onde partiu o vôo 3054, da TAM.
A caminho da aeronave estavam lado a lado. Joelma já falara da ida repentina, da filha com a avó, do trabalho de arquiteta para uma grande empresa. Falara também de sonhos, de projetos de vida, de lugares que costuma ir, de livros e de cidades. Em menos de vinte minutos falara mais que costuma falar num dia. Era como se ele fosse alguém que não havia visto há muito tempo, ou que esperara encontrar um dia para poder contar.

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Itamar estava extasiado. Poderia ser o perfume, o cabelo, os olhos, os movimentos suaves, o sorriso, a voz que lhe era como música. Contara-lhe das vezes que perdeu o avião, inclusive hoje, pois deveria ter ido num vôo antes, contara-lhe do trabalho que o fazia ir semanalmente a São Paulo por conta da agência de publicidade, contara-lhe do que gostava, do que queria, do que sentia e estava para falar do que já amara quando olhou bem nos olhos dela e descobrira que nunca havia amado antes.

25 julho 2007

No ar: sorrisos - Capítulo 2

imagem: Aeroporto Internacional Salgado Filho, Porto Alegre, de onde partiu o vôo 3054, da TAM.
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A sala de embarque estava cheia. Passageiros de vários vôos duelavam por poltronas, sem saber por quanto tempo esperariam. Nada adiantara chegar cedo: Joelma apoiou-se na coluna, próximo a um enorme vaso onde uma planta raquítica sobrevivia. Abriu seu livro, pensou na filha e passou-lhe pela memória a imagem de Bruno, seu ex-marido que agora estava na China. Bruninha com seu pai distante... Sentiu-se culpada, fechou o livro que nem lera a primeira palavra e rodou seus olhos pelo ambiente. Com freqüência via em outros homens o rosto de Bruno, como se fosse uma imagem que vagava permanentemente em sua memória. Porém, quando Itamar se aproximou com um sorriso e um bombom na mão, a figura desfez-se de imediato e, como se sempre o tivesse conhecido sem nunca tê-lo encontrado, entregou seu sorriso.


Itamar havia perdido o seu vôo, mas como isso era tão normal para ele, nem se incomodava. Sabia que a funcionária da companhia já asseguraria sua poltrona, conforme havia combinado há quase dois anos de vôos semanais a São Paulo. O lugar ao lado de Joelma não foi por sua interferência e pedido. Quis o destino acomodá-los juntos. Não foi difícil percebê-la em pé na lateral da sala. Com um livro na mão, o cabelo liso e longo que emoldurava um rosto alvo e de traços delicados, lá estava ela. Aproximou-se, sorriu. Ainda sobrara um bombom que tinha guardado para o vôo, mas achou melhor investi-lo numa apresentação diferente. Quando ela lhe retribuiu o sorriso pode perceber os olhos verdes e brilhantes flanando sobre a voz delicada, que num sotaque porto-alegrense, disse:
- Obrigada, estranho!

19 julho 2007

No ar: perfume - Capítulo 1

imagem: Aeroporto Internacional Salgado Filho, Porto Alegre, de onde partiu o vôo 3054, da TAM.
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Joelma lia seu livro na fila do check in do aeroporto. Chegara com antecedência, mas enfrentava a fila com naturalidade. Passava seus olhos pelas páginas, mas volta e meia seus olhos se perdiam nas linhas e seu pensamento fugia para Amanda, sua pequena filha que ficara na casa da avó. “Mulheres separadas se adaptam”, havia dito à chefe antes da viagem inesperada à São Paulo.

Itamar veio correndo e já estavam chamando seu vôo quando chegou ao balcão da companhia aérea. Viu Joelma na fila e se encantou. Sentiu o perfume e esqueceu-se da correria que fizera para chegar ali. Ao ser atendido, a funcionária lhe sorriu como de costume, afinal estava acostumada a vê-lo todas as terças-feiras no mesmo vôo. Ele lhe trouxe o bombom de sempre e disse: “Me põe ao lado dela”. A senhora piscou-lhe de volta, agradeceu o bombom e disse: “tenha uma boa viagem, senhor”.

15 julho 2007

Olegária vem aí



Em frente à televisão, ela assistia à novela. Olhos atentos, neurônios sintonizados, emoções vibrando pelo desenrolar da estória. Mas sua história pode ser muito mais interessante...

Veja o lançamento no novo blog de Sílvio Vasconcellos (Contos & Encontros) e de Lu Cordeiro (Nas Esquinas da Farme), dia 25/07/2007.
Vá lá conferir!

23 junho 2007

In-versa-mente


De frente ao penhasco ela mira o sol que se apaga no mar. É a última pedra que a detém, um passo antes do fim. Volta-se para trás e neste ponto o escritor nota a personagem a observá-lo. Seus olhos vermelhos, chorosos, fundos e amargos, dirigem-se diretamente a ele. Por um instante o criador contempla a criatura e sua aflição. Ele não sabe mais quem determinará o passo seguinte: ela a olhá-lo, condena-lhe pelo passado que a deu. Ele tenta disfarçar perante a tela a imagem que lhe chama os olhos. Ele vê o passo que segue, mas não ousa escrevê-lo. Desvia os olhos dali e sente a culpa de um deus perante a alma perdida. Ela recua da pedra e vem em sua direção. Já não é mais ele que governa a cena. Ela se aproxima e por instantes fica desfocada, como se já não pertencesse à cena. Ele tenta parar sua digitação, mas ela o impulsiona a dedilhar cabisbaixo, de olhos presos às letras brancas em teclas negras a sua frente. Ela, ainda lacrimosa, abre um sorriso instigante e balbucia as duas palavras que apesar de separadas dizem tudo: “por quê?”. Ele sabe que ela está ali e mantêm-se de cabeça baixa. Já não é mais ele quem dirige o roteiro. A presença dela que lhe impulsiona. Por instantes quer matá-la, atirá-la no penhasco; seria capaz de inverter o pôr de sol e fazê-lo novamente subir, afinal era ele que escrevia e poderia fazer como bem quisesse. Mas, não. Agora era ela que jogava seus olhos sobre cada movimento que ele fazia. Não andaria de volta ao penhasco, não saltaria, não morreria. Entraria por entre as pontas dos dedos e se incorporaria no seu criador.
Agora ela está diante do teclado e olha adiante o penhasco vazio. Vê que o sol parou e o substitui por uma lua prateada que encrespa o mar. Pede a brisa de lá para balançar seus cabelos, que antes o escritor não foi capaz de descrever. Seus cachos dourados balançavam do vento que soprava da tela. No penhasco vazio surge um homem assustado que se vira pra trás e pede em súplica um leve impulso para jogá-lo ao mar que ela acaba de transformar numa nuvem suave que o ampara durante sua queda. Quando ele já não entende mais a singela paisagem trocada por ela, passa afundar nos flocos de algodão e morre devagar, sem saber onde está.

12 junho 2007

Isso já é outra história - 4

Desafiando a história escrita esse blog resolveu reescrevê-la.
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Como esconder um camelo numa plantação de cevada
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Antes mesmo de derrubarem as torres gêmeas, Bin Laden já havia visitado a tríplice fronteira, na casa de seu tio, em Ciudad del Este. Quando Bush mandou invadir o Afeganistão e o Iraque, Bin Laden já estava no Brasil. Cortou a barba, tirou o turbante, aprendeu a cantar umas músicas típicas na esperança de se parecer com um brasileiro nato. O que ele não contava era com o empresário que o viu cantar num karaokê em Foz do Iguaçu. Ele ainda tentou disfarçar tomando cerveja, coisa que qualquer ortodoxo não faria, mas não adiantou. Quando lhe perguntaram o nome ele disse Isaac, agora já tentando parecer judeu. O caçador de talentos disse que Zeca soava melhor. Para manter o disfarce ele aceitou. Enquanto o filho de Golias o procura no deserto, ele se afoga na cerveja no país onde beber dá status e mata mais que qualquer guerra, mas... isso já é outra história.

05 junho 2007

Isso já é outra história - 3

Desafiando a história escrita esse blog resolveu reescrevê-la.



Johnny French
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No começo era para ser uma seqüência do filme Johnny English que seria rodado na França, porém o ator Rowan Atkinson acabou sendo convidado a realizar um reality show, incorporando o personagem, que segundo o script, iria candidatar-se a presidente da república, sob o nome de Nicolas Sarkosy. Ainda não está definido em que país se passará o terceiro, episódio, mas... isso já é outra história.




30 maio 2007

Isso já é outra história - 2



Desafiando a história escrita esse blog resolveu reescrevê-la.
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Tal pai, tal filho

Todos sabem que o presidente americano é um comediante frustrado. O que ele não sabe é que traz em seus gens a comédia. Durante a lua-de-mel de seus pais, no Rio de Janeiro, sua mãe teve um affair com um comediante brasileiro e levou consigo o futuro senhor da guerra. Mas isso já é outra história...

29 maio 2007

Vídeo & Verso

Nasce um novo blog de poesia em movimento.

Confira:

Vídeo & Verso

Enfrentando a inquietante paralisia que ocupa o verso da poesia

24 maio 2007

Isso já é outra história - 1

Desafiando a história escrita esse blog resolveu reescrevê-la.


Che Guevara não morreu


O argentino Che Guevara, acometido por uma diarréia, não pode ir para o interior da Bolívia e mandou um amigo cubano em seu lugar. Morto em emboscada, manchete no mundo todo, a foto do sósia foi vista pelo amigo Che, que repousava num hospital em La Paz sob codinome de Odair José. Após o primeiro choque, resolveu aproveitar a chance que a história lhe deu e fugiu para o Brasil, onde tornou-se cantor brega e fez sucesso com a música “Pare de tomar a pílula”. Mas isso já é outra história...

14 maio 2007

Carolina quer falar


imagem daqui

- Oswaldo, és tu?

- Sim, Carolina, sou eu...

- Que saudades, Oswaldo...

- Não fales muito, descanses.

- Preciso falar, Oswaldo. Tenho tanto a te dizer.

- Mas tu precisas repousar.

- Oswaldo, sempre te amei.

- Carolina...

- Não fales nada, Oswaldo. Eu não queria ter te deixado...

- Mas...

- Naquela noite, ao final do baile, quando meu pai nos pegou...

- Carolina...

- Preciso falar, por favor. Naquela noite eu não devia ter aceitado que ele me mandasse para tão longe. Eu fui sofrendo, pensando em ti o tempo todo...

- Mas Carolina, querida...

- Nada mais na minha vida importou. Eu queria ter voltado, te abraçado, ter tido filhos contigo, viver minha vida toda ao teu lado...

- Carolina, tu voltaste... Nós casamos, tivemos filhos, netos, até dois bisnetos, que levam teu nome e o meu.

- Não pode ser...

- Assim foi.

- Não lembro de nada, só que te amava muito.

- Assim ainda é, querida. Nós vivemos juntos todos esses anos.

- É?

- Sim, querida.

- E o Duarte?

- Que Duarte?

- Do seu Timóteo, da padaria. Eu não casei com ele?

- Com o prefeito?

- Não sei, só lembro de estar com ele no depósito.

- Carolina?

- Noites e noites... Será que sonhei?

- Ele está ali na sala, esperando para te ver...
- Ah, o Duarte...
- Mas Carolina, e eu? E nosso amor?
- Nosso amor deve ter sido maravilhoso, querido, mas o Duarte... Ai, ai, com Duarte era uma coisa de carne, entende?... Oswaldo, onde eu estive?

- Faz anos que tu tens estado ausente, sem reconhecer ninguém. Pelo visto agora estás te lembrando mais do que na vida toda lembrou de mim!

- E a Selma?

- Tua prima?

- Sim. Tenho saudades dela...

- Ela morreu há mais de trinta anos.

- É? Que pena... Mas nós aproveitamos...

- Garanto que até ela sabia... Tua maior amiga... Meu Deus, Carolina... Eu era corno por tanto tempo?

- Dormíamos junto tantas vezes...
- O quê? Com a Selma?... Na infância, suponho...

- Que nada! A gente se beijava, experimentava tudo... Lembro e me arrepio até agora... Aquelas tardes na praia, os cursos que inventávamos... Ah, a viagem à Europa que tu nos deste...

- O que? Carolina, tu não estás bem. Acho que eu também não estou muito bem. Preciso de ar... E tu descanses, Carolina, tu estás tendo alucinações. Deves estar cansada demais...

- Meu corpo pode estar se indo, mas de repente tudo está claro como se fosse um filme em tecnicolor...

- De ficção, espero.

- Não, Oswaldo...

- Mas a gente viveu juntos tanto tempo e eu nunca pensei que...

- Oswaldo, querido. Todos temos nossos segredos. Tu mesmo...

- Eu o quê?

- Sim, eu te vi e sofri muito.

- Como assim?

- Com a Dulce.

- Tua irmã?
- Sim. E madrinha de nossa filha mais velha... Ah, e com a Dorotéia.

- A empregada... Como tu sabias e nunca me falou nada. Por quê?

- Oswaldo, Oswaldo... Não me peças respostas agora. E teve mais...

- Me perdoe, me perdoe!

- Já te perdoei a tempo e da melhor forma possível.

- Carolina, tu não queres descansar?

- Lembras do Adolfo?

- Que Adolfo?

- O Adolfinho.

- O filho de minha irmã, meu afilhado?

- Sim.

- Não me diga que...

- Aham.

- Carolina??

- Ah, Oswaldo, nós fomos tão felizes...

- Carolina, tu vais descansar agora, por bem ou por mal!

08 maio 2007

Noite

publicação original: 17/05/2006
[Starry Night - Vincent van Gogh]
Ela fechou os olhos e despertou. Ao seu lado, deitado em decúbito, aquele homem negro, de contornos definidos e o rosto virado para ela, deixando-lhe a pele aveludada ao seu alcance. Seu corpo exalava o odor do amor recente e facilmente lhe convidaria para lamber-lhe inteira, depois que um sorriso alvo e voz em sussurro lhe dissesse o quanto lhe amava.
Abriu os olhos e adormeceu. Ao seu lado, ele deitado com sua barriga peluda para cima, que sobrepunha à cueca escondida entre suas dobras. Seu corpo exalava um bife acebolado, um croquete da padaria, uma cachaça há muito tempo envelhecendo no seu próprio barril de cintura. Entre um ronco e outro, gemia como se lhe convidasse a vomitar.
Levantou-se da cama, acendeu um cigarro e foi à janela procurar um espaço para jogar-se.
Ele cerrou seus olhos e acordou-se. Ao seu lado, respirando suave, reinava estendida em seus lençóis aquela mulher de cor de canela, de seios firmes e carnes bem dispostas. Assim, deitada de lado, não disfarçava a curva do desejo que se estendia entre sua cintura e seu quadril, descendo pela coxa, deixando a vista seu tufo de veludo que parecia pulsar de desejo. Tirar-lhe desse encanto seria somente para trazer-lhe o gozo num corpo que vibrava ao simples acariciar de sua pele. Ansiou por vê-la sorrir e sem abrir os olhos, debruçar os lábios contras os seus.
Ergueu as pálpebras e desvaneceu-se perante a vista trágica daquele corpo branco, quase azulado de uma pele que mal cobria os ossos que agonizavam perante seu aroma de cigarro recém fumado. A carne murcha, pele vincada e um cenho sisudo, mesmo adormecido, poderiam fazer-lhe morrer de susto a qualquer madrugada. Entre um resmungar e outro, tossia num tom grave que só os fumantes moribundos atingem.
Saiu da cama, buscou o chinelo, foi até a cozinha e tomou um trago, na esperança de morrer engasgado.
A noite confunde o sonho, mas não afugenta o medo do escuro que habita quem entrega a vida ao pesadelo.

19 abril 2007

Bom dia, meu velho!


[Post original em 24/02/2006]
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Quando acordou de manhã, havia uma velha deitada ao seu lado na cama. Ela emitia sons estranhos e seus traços lembravam sua sogra. Não, não poderia ter bebido tanto na noite anterior para ter acabado nos braços de sua sogra!
Levantou-se com dificuldade, como se seu corpo pesasse toneladas, procurou seu chinelo ao lado da cama e encontrou umas pantufas surradas que lhe aqueceram os pés.
Devagar e apoiando-se nos móveis chegou até o banheiro, onde molhou seu rosto, esfregou seus olhos e mirou assustado o espelho. Susto! Havia envelhecido quarenta anos: sua barba por fazer era branca numa pele flácida que lembrava seu avô; tufos de cabelos grisalhos saíam de suas narinas e ouvidos como se tivesse engolido um gato; suas mãos, agora as via melhor, tinham marcas marrons e avermelhadas, sobre uma pele murcha que deixava seus tendões sobressaírem-se feito cordas grosseiras de um velho violão; abriu seu roupão perante o espelho e quase caiu para trás. Estava aprisionado dentro de um velho corpo, com longos pêlos brancos pelo peito e pela barriga feita de peles caídas sobre seu sexo, que nem mais poderia ser chamado assim. Suas bolas pareciam estarem tão pesadas que afundavam no vazio que era seu entre-pernas.
Voltou para o quarto e olhou aquela que parecia ser sua sogra, que nesse momento apanhava seus óculos no criado mudo e dizia:
- Adalto, meu velho, por que levantaste tão cedo?
Ele reforçou a suspeita que fosse sua sogra e sem jeito tratou de sair do quarto.
A casa era a mesma, mas possuía também rachaduras que lembravam rugas pelos cantos. Andou até o quarto dos meninos e o encontrou igual, com as mesmas flâmulas pelas paredes, um pôster do Che Guevara e uma faixa com uma canção do Ataualpa Yupanque “Yo tengo tantos hermanos...”. Parecia tudo normal, até demais... como se tivesse sido abandonado há décadas, porém mantido feito mausoléu. A mobília empoeirada parecia ter sido esquecida, para alegria das teias de aranhas que se multiplicavam nas alturas. Em frente ao quarto, seguindo pelo corredor, o tapete de tão pisoteado, criara um trilho até a cozinha, onde agora ele se dirigia.
Chegando lá, a geladeira amarelada, o fogão, a mesa eram os mesmos com os mesmos traços amarrotados de seu corpo. As cadeiras estavam forradas, com um pano de estampa antiga, já puído.
Quis abrir a janela, porém havia novas trancas, como se quisessem aprisioná-lo naquele lugar. A porta estava chaveada, mas não teve dificuldade em sair ao quintal.
A grama crescida, sem flores e as paredes de três edifícios que cercaram seu quintal deixavam um ar lúgubre como se fosse o fundo de um cemitério de um filme antigo de Bela Lugosi.
Procurou seu cão, assobiou, chamou pelo Rex e nada. Olhou para trás e lá estava aquela mulher:
- Adalto, você chamou pelo Rex? Ele morreu há trinta anos meu velho.
Aquela intimidade lhe permitiu encontrar dentro daquele corpo mirrado da sogra, sua mulher atropelada pelo tempo.
Não havia dúvida. O tempo passara sem que ele tivesse se dado conta.

05 abril 2007

Reminiscências da infância - I


Currupiu, currupiu, currupiu...

Mãos dadas, braços estendidos, pontas dos pés que se tocam. Gira, gira, gira tudo...

Currupiu, currupiu, currupiu...

Gira, gira, acelerando. Sorriso no rosto, cabelos em desalinho, olhos no céu que gira, gira.

Currupiu, currupiu, currupiu...

Mãos suadas e firmes, poeira que sobe, chinelo de dedo e o riso, o riso! Gira, gira, mais rápido...

Currupiu, currupiu, currupiu...

Os amigos rodando, o pátio, as casas, a rua, o mundo girando, mais rápido, mais rápido, o tempo passando, passou...

24 março 2007

Desce? - 10


Não havendo reação contrária, a polícia abre o elevador que fica em desnível e encontra a cena patética e um odor insuportável. A primeira a sair é a senhora apavorada, que levará na lembrança o susto que passou e a saudade do que teve na mão; em seguida sai a menina de rosto inchado pelo bofetão desferido pela senhora que nem lhe pediu desculpas; depois vem a mulher elegante, que não deixa de dar um olhar lascivo ao policial robusto que lhe ampara para descer; depois sai o contínuo, ainda de óculos de sol, numa semi-ereção causada erroneamente pela mão macia da mulher que lhe apalpara nos últimos minutos e nem tenta descobrir a boca masculina que havia beijado; o homem gordo apanha a pasta errada e sai com o produto do roubo sem que ninguém se dê conta, nem ele; na seqüência, depois de alguns minutos de esforço a polícia convence o rapaz aluscinado que eles não são anjos e muito menos que ele esteja no inferno, apesar do cheiro; por último, arrastam pelas pernas o ladrão e o retiram do elevador frações de segundos antes da velha máquina começar a ranger e despencar os últimos cinco andares, levando consigo a pasta cheia de currículuns amassados.

Desce? - 9

Picasso

Do quarto segundo em diante, entre ofensas e desculpas, o grupo tenta estabelecer uma comunicação e descobrir quem está desmaiado entre eles. O rapaz drogado que acabara de sair de um assalto com seu amigo ainda acredita estar em algum lugar entre o inferno e o céu e não dá-se conta da ausência do amigo e muito menos de quem lhe beija; o gordo desempregado tateia o fundo do elevador à procura de sua pasta perdida enquando seu flato desgovernado transborda o tecido de suas calças; a prostituta grita por ajuda; a menina tenta usar a luz do celular para descobrir quem lhe dera um tapa em seu rosto, que com certeza deixaria marcas horríveis na pele recém tratada, mas, em seguida, tenta ligar para uma amiga e contar a loucura que está vivendo; a mulher que rezava ainda sente na mão o membro do garoto, mas não tem idéia de qual dos homens pertence; o office-boy que beijara o bandido por engano, ao sentir os pêlos de barba afasta-se enojado, no mesmo instante que descobre que há alguém lhe segurando por sobre suas calças. Quando todos já sentem a situação crítica que se encontram, escutam uma porta se abrindo mais abaixo e o grito:

- Fiquem quietinhos aí que vocês estão presos. É a polícia!

01 março 2007

Desce? - 8

Udalzova - cubismo


O que acontece depois transcorre em três segundos, enquanto o ar se impregna do terror nausebundo que eclode no homem que carrega a pasta:


A senhora assustada grita "Socorro!" e espalma suas mãos às paredes, porém encontra o corpo de alguém. O rapaz ao seu lado, que escuta música e não ouve seu grito, recebe a mão que lhe aperta seu sexo. De imediato lembra da linda mulher que entrara no elevador e, no escuro, puxa o seu rosto e beija-lhe a boca. O assaltante dopado que pensa ter morrido, corresponde ao beijo, pensando que fora bem-vindo ao céu. A mulher assustada com o grito e com o movimento no escuro do elevador, sente a outra mão da mulher que grita por socorro e, sem entender, solta um tapa na pessoa ao seu lado. O outro assaltante, aproveita-se para tentar arrancar da mão do homem gordo, a pasta de dinheiro que ele carrega. Este, escuta o grito solta sua pasta de curriculuns e abaixa-se para juntá-la, porém bate a cabeça contra a do ladrão que tentava roubar-lhe. O meliante tonteia e cai sobre a menina que não sabia se segurava o corpo desfalecido ou se ligava o celular para contar a aventura para sua outra amiga, quando recebe um tapa do rosto que não imaginava de onde poderia ter vindo. E na confusão que se instala, em comum apenas o ar flatulento que revolve os estômagos de todos.



21 fevereiro 2007

Desce? - 7

cubismo gráfico - Shawn


Convencer o idiota de seu amigo a fazer o assalto com ele custou-lhe uma pedra de crack. O que não contava é o quanto alto ele ficaria. Agora, depois de trancar os "trouxas" no banheiro, pegar o dinheiro no cofre, tinha que cuidar para não deixar o "plasta" vagando pelos corredores do prédio. A escada ficou inviável; naquele estado não conseguiria tirá-lo dali. Melhor arriscar o elevador, enquanto os "manés" estavam presos.

A porta abre-se rápido e acende-lhe a esperança de uma escapada na mesma velocidade. Quando inicia a descida começa a tremer, pois a geringonça mal se move. Há uma mulher do seu lado que reza. "Será que ela desconfiou?", pensa. Dá uma geral nas pessoas que ali estão. Um malandro atrás... melhor tomar cuidado com ele, reflete, pode ser um "colega" e lhe roubar. Por frações de segundos, as duas gatas lhe fazem esquecer a fuga. A mais novinha serviria para seu amigo, mesmo chapado, e a outra, mais descolada, valeria a pena gastar a grana num motel com ela, numa suíte, "suíte presidencial, por favor!", já se imagina, com ela agarrada a beijar-lhe descaradamente. Volta da ilusão ao reparar no homem com uma pasta. Quem sabe a sorte grande não lhe está aplicando uma peça e ele está carregando uma bolada? Quem sabe tivesse assaltado outra sala com mais dinheiro? O elevador pára logo em seguida... "ah, não!... está lotado!", diz de impulso, louco por ver-se na rua. Enquanto enxuga o suor da testa, o elevador tranca e a luz se vai. "Merda, era só que faltava", é o que lhe ocorre enquanto sente o "berro" a gelar-lhe à cintura...

09 fevereiro 2007

Desce? - 6





Psicodelia - 70's -

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Na verdade ele não lembrava muito bem o que decorrera entre a última pedra que queimaram até agora. Lembrava que seu amigo lhe propusera um negócio que renderia muito dinheiro, que se tratava de um prédio e que poderiam comprar mais pedras, vender e ganhar mais dinheiro. Depois tudo ficou colorido, lembrava de algumas pessoas assustadas, de uma porta fechada, de um revólver na mão do amigo. Agora no corredor, não sabe onde é a escada e terão que descer de elevador. Começa a suar frio e não sabe ao certo se seu amigo havia trancado a porta onde aquelas pessoas estavam. Num susto, abre-se a porta do elevador e já está quase cheio. Vê o vulto de uma senhora que reza e teve a impressão de ter morrido. Ao lado duas meninas, uma que sorri e outra que fala ao telefone. Um garoto mais atrás de está de óculos escuros - deve estar "viajando" também, pensou. O homem com a pasta parece um velho entregador de maconha lá no morro, mas não tem certeza. Pode ser a porta do inferno e, não, o elevador que pára, a luz se apaga e ele fica esperando pelo demônio. Sente o cheiro de enxofre e passa a ter certeza.

01 fevereiro 2007

Desce? - 5

Boccioni - cubismo


Sua frio. Depois de três meses desempregado, a ansiedade lhe fizera engordar dezessete quilos que se somaram à montanha que já carregava consigo. Saíra há pouco da entrevista para corretor de seguros e a simples olhada geral que a psicóloga lhe terminara com a esperança. Além do mais, as fartas refeições às custas do salário mísero de sua mulher, pesam agora em seu abdômen e não vê a hora de chegar a um banheiro. O elevador demora uma eternidade e chega quase cheio exatamente no momento em que solta o gás venenoso que envolve suas calças feito um balão explosivo. Movimentos mínimos talvez ajudassem a preservar consigo a nuvem tóxica. O que não contava era com a porta prendendo sua pasta cheia de currículuns, que lhe força a um puxão que evita que ela suba no movimento contrário do lento de descida. Sabe que a menina atrás de si está rindo, mas disfarça para movimentar-se menos. A senhora ao seu lado se benze na partida do andar, talvez pelo sacolejar bruto ou pelo aroma nada agradável que começa a evaporar de suas roupas. A mulher elegante ao telefone está distante em sua conversa, mas é bem possível que seja a primeira a inalar o desconfortante azedume que está prestes a ser descoberto. Quando as coisas já estavam mal, sua barriga volta a movimentar-se exigindo que vá logo fazer o que mais tem feito de produtivo nos últimos meses. O garoto de trás, provavelmente, será o último a perceber, já que está com seus fones de ouvido e não ouvirá a reclamação geral. Sua frio, em bicas. O elevador pára novamente e entram dois rapazes bem vestidos que levam uma pasta igual a sua, bem cheia. Um concorrente a uma vaga enxerga de longe seu adversário. Se achava que não poderia piorar, enganara-se. Pára novamente e a luz se apaga. De dentro de si o flato ousado não respeita a escuridão e deflagra o arraso final.

26 janeiro 2007

Desce? - 4

Keith Haring - grafitti


Na saída da esteticista, olha a priminha que pode lhe dar algum lucro. Basta investir em mais uns detalhes e com quinze ou dezesseis ela já terá ótimos clientes, quem sabe grandes executivos que pagarão muito dinheiro para tê-la em suas camas. Por enquanto ela a trata como uma menina gosta de ser tratada e, aos poucos, vai mostrar-lhe o submundo onde um belo corpo faz fortuna àqueles que sabem explorá-los. Ao telefone com seu cafetão, disfarça um namoro e espia a menina de soslaio. Chega o mesmo elevador que há sete anos lhe traz até ali para reparar os danos que drogas e álcool consomem. Continua disfarçadamente tratando o programa da noite quando a porta se fecha. Ao seu lado uma senhora do tipo puritano e ingênuo como as mulheres dos seus clientes; atrás, um garoto que não lhe tira os olhos, mas de onde não é capaz de sair um tostão furado. A medida que desce, vai chegando mais gente, até um homem gordo, daqueles que dão trabalho na cama, quase matam sufocadas e ainda dão pouco prazer pela massa de gordura que avança entre a barriga e seus membros afundados, assados de tanto roçar nas pelancas acumuladas. O nojo só é esquecido na hora de cobrar peso de ouro, o equivalente ao que a balança sofre sob seus pés nos banheiros de suas casas perante o olhar assustado de suas mulheres. Ainda ao telefone, vê entrar dois rapazes apressados. Não parecem ser clientes típicos mas algo lhe diz que há dinheiro na parada, ainda mais depois que não deixaram entrar mais ninguém... Desliga o celular pouco antes de faltar luz e o elevador parar.

19 janeiro 2007

Desce? - 3

Picasso - cubismo


Ser a prima mais nova tem suas vantagens. Há tanto para aprender nesse mundo e ter alguém para lhe guiar é o máximo, diz a garota de catorze anos, segurando o celular e falando com uma amiga de escola, tal qual a prima ao seu lado falando com o namorado. Em frente ao elevador, fala e olha para ela, tentando imitar inconscientemente até o seu jeito de apertar o botão. Saíram a pouco da esteticista que sua prima lhe indicou e a acompanhou. Tem que tirar essas espinhas, ensinava a prima mais velha e ela não tinha dúvidas disso. Chega o elevador e entram como se levassem juntos seus interlocutores nos telefones. Ela se despede da colega e desliga, procurando na parede o sinalizador de andar, que não existe, apenas os botões antigos, onde ela procura e aperta o T. Vê uma senhora idosa, com rosto assustado a tentar equilibrar-se nas sacudidas que vêm depois de fechar a porta. De súbito arranca, mas vai lentamente se deslocando para baixo. Sua prima está tão animada ao telefone, que chega a sentir ciúmes ao ver-se só, mesmo com ela. Em seguida a porta se abre para a entrada de um senhor enorme, de terno, carregando uma pasta, que parece ser de vendedor, quem sabe um daqueles que estão sempre nos consultórios dos médicos, furando filas. Ela recua um pouco para que ele acomode-se melhor, pois quase fica com a pasta presa na porta, o que seria hilário. Mais adiante pára de novo e entram dois rapazes. Ela nota que sua prima força a despedida ao telefone com o namorado, para mostrar-se disponível. Ela conhecia o jeito como ela ajeitava o cabelo e logo aprenderia muito bem como fazer igual. Os dois homens estão falando entre si e parecem com pressa. Nem notaram a prima!, pensa ela surpresa. Em seguida, a porta volta a abrir-se e nota que atrás há alguém que não tinha visto antes, de óculos de sol. Acha engraçado. Acho engraçado o fato dela achar tudo engraçado. Ia comentar algo com a prima quando a porta se abre e os dois rapazes a fecham avisando que está lotado, o que não chega a ser verdade. Há algo de errado com o nervosismo deles, conclui justo no instante que falta luz e o elevador tranca. Escuta a senhora se benzendo e agarra-se ao braço da prima.

16 janeiro 2007

Desce? - 2

Le Portugais - Braque - cubismo


Saindo da consulta médica, com sua receita numa mão, tenta abrir a bolsa e segurar a sombrinha ao mesmo tempo. Aperta um dos botões que há em frente ao elevador e se pergunta para quê dois botões. A porta se abre e dentro apenas um rapazote, que nem de longe lembra o ascensorista que fora seu primo em idos tempos, que até aposentar-se usava um uniforme bem engomado. Pergunta-lhe se está descendo e pelo resmungo do rapaz compreende que sim. A porta se fecha num susto e começa uma descida tão barulhenta quanto lenta. Antes que ela pudesse segurar-se, ele pára no andar seguinte. Ela se segura na parede, batendo com a sombrinha. Entram duas meninas, que falam e riem nos seus telefones de mão. Para ela, mais um aparelho para complicar a vida, cheio de botões, que acabaram por desempregar as telefonistas de seu tempo. Fecha-se a porta novamente e continua a viagem, até parar no que deve ser mais abaixo, com a mesma força de abrir e fechar a porta, contrastando com a lentidão do movimento de descida. Assusta-se ao ver o tamanho do homem que entra e faz movimentar o fundo da caixa, onde ela se vê espremida. Pede proteção divina e a porta é cerrada, quase deixando de fora parte do homem que segura uma pasta de agente funerário. O menino que deveria estar cuidando da porta, agora está de óculos de sol. Pensa que talvez seja um pobre cego que conseguiu uma ocupação e sente pena dele, atrás daqueles óculos e do aparelho de surdez que agora nota em seus ouvidos. Abana-se como pode e o elevador pára novamente para a entrada de dois bonitos rapazes que conversam alto, parecendo nervosos. Os jovens tem pressa, lembra ela. Firme na parede lateral, onde agora apóia a bolsa, calcula que devem faltar mais alguns andares para terminar seu martírio, quando de repente o motor pára e a luz se apaga. Benze-se no escuro, porque ali, só Deus vê. Numa fração de segundo se solidariza ao rapaz cego que dirige o ascensor. Vai ter que avisá-lo, pois ele não deve ter notado que estão no escuro.

12 janeiro 2007

Desce? - 1


Braque - cubismo



Décimo oitavo andar, o último. Prédios antigos não deveriam ser tão altos, pensava enquanto ajeitava os documentos que teria que entregar. O velho elevador pára, saem as últimas pessoas se abanando e ele entra ali solitário. Num solavanco, começa a descida e logo pára no andar inferior. Entra uma senhora que lhe pergunta “desce?”, a que ele acena com a cabeça que sim. A porta fecha rapidamente dando a falsa sensação que algo muito rápido está para acontecer, porém retoma sua descida preguiçosa. Mais dois andares, nova parada. A velha senhora se segura na parede para deter sua queda, tal a sacudida que dá. Tão logo se equilibra faz o sinal da cruz e a porta se abre para a entrada de duas mulheres que falam ao celular. Uma delas continua a conversa quando a porta se fecha no mesmo susto de antes para a senhora. O rapaz olha para as duas jovens, avalia-as de cima a baixo e põe o fone no ouvido e os óculos de sol, como se elas tivessem iluminado a velha caixa descendente. Dedilha na parede de trás o rap que escuta no MP3 player. Três andares sem parar, até que, em leve desnível, pára novamente para a entrada de um homem gordo com uma pasta executivo na mão, sob o olhar assustado da senhora idosa, que mais uma vez se benze. As meninas dão lugar para o espaçoso senhor, que por pouco não é atingido pela força da porta que se fecha. Décimo andar, dois homens suados entram rapidamente e apertam o botão de fechar. Falam-se aos cochichos como se ninguém pudesse ouvi-los. O rapaz com o fone no ouvido não se interessa na conversa e continua a olhar por trás dos óculos escuros as duas garotas. Avalia que uma deve ter uns dezesseis e a outra já é meio velha, talvez uns vinte, idade avançada para seus dezessete recém completados. Descem mais dois e o calor começa a incomodar. Nova parada, ainda havia espaço para mais duas ou três pessoas, porém os dois rapazes assumem o botão de comando da porta e avisam que está lotado para o casal de idosos que queria entrar. O elevador pára entre o sétimo e o sexto andar bruscamente e as luzes se apagam.

05 janeiro 2007

Amnésia virtual - 4

Imagem daqui

Lembraram-se muitos, que havia o risco de perderem suas fotos, ou por não imprimi-las ou por salvá-las em locais impróprios, ou até mesmo de imprimi-las em qualquer papel. O que não sabiam é que a fotografia verdadeira, não se transformava em bites e bytes. Além da memória que a retina guardara, não havia mais nada que pudesse trazer de volta a doçura congelada no tempo, o instante que o saudoso clique ocorria quando alguém sorrindo dizia: Olha o passarinho – figura lendária de um animal alado e orgânico que habitava o planeta na época em que havia árvores naturais ao invés de conversores eólicos de oxigênio.

03 janeiro 2007

Amnésia virtual - 3



Dez anos da memória digital desaparecera, desde que pararam de fabricar os filmes fotográficos. Crianças nasceram, foram batizadas, comeram a primeira papinha, caminharam, foram à escola, abraçaram seus amigos que nunca mais viram e nada mais restava além de lembranças.
O velho fotógrafo da praça, que muitos chamavam de “retrógrafo” lambe-lambe, que resistira até 2009 com seu estoque de filmes, ficara rico da noite para o dia, vendendo imagens guardadas em celulóides; os fotógrafos de praia, com seus cavalinhos e carrocinhas passaram a ser assediados e foram obrigados a esconder seus velhos baús de imagens um dia fotografadas e não pagas na hora que apresentavam a cobrança; os
artistas que faziam seus trabalhos em latas furadas, passaram a ser homenageados em cerimônias transmitidas em tempo real pela hipertela.