16 janeiro 2007

Desce? - 2

Le Portugais - Braque - cubismo


Saindo da consulta médica, com sua receita numa mão, tenta abrir a bolsa e segurar a sombrinha ao mesmo tempo. Aperta um dos botões que há em frente ao elevador e se pergunta para quê dois botões. A porta se abre e dentro apenas um rapazote, que nem de longe lembra o ascensorista que fora seu primo em idos tempos, que até aposentar-se usava um uniforme bem engomado. Pergunta-lhe se está descendo e pelo resmungo do rapaz compreende que sim. A porta se fecha num susto e começa uma descida tão barulhenta quanto lenta. Antes que ela pudesse segurar-se, ele pára no andar seguinte. Ela se segura na parede, batendo com a sombrinha. Entram duas meninas, que falam e riem nos seus telefones de mão. Para ela, mais um aparelho para complicar a vida, cheio de botões, que acabaram por desempregar as telefonistas de seu tempo. Fecha-se a porta novamente e continua a viagem, até parar no que deve ser mais abaixo, com a mesma força de abrir e fechar a porta, contrastando com a lentidão do movimento de descida. Assusta-se ao ver o tamanho do homem que entra e faz movimentar o fundo da caixa, onde ela se vê espremida. Pede proteção divina e a porta é cerrada, quase deixando de fora parte do homem que segura uma pasta de agente funerário. O menino que deveria estar cuidando da porta, agora está de óculos de sol. Pensa que talvez seja um pobre cego que conseguiu uma ocupação e sente pena dele, atrás daqueles óculos e do aparelho de surdez que agora nota em seus ouvidos. Abana-se como pode e o elevador pára novamente para a entrada de dois bonitos rapazes que conversam alto, parecendo nervosos. Os jovens tem pressa, lembra ela. Firme na parede lateral, onde agora apóia a bolsa, calcula que devem faltar mais alguns andares para terminar seu martírio, quando de repente o motor pára e a luz se apaga. Benze-se no escuro, porque ali, só Deus vê. Numa fração de segundo se solidariza ao rapaz cego que dirige o ascensor. Vai ter que avisá-lo, pois ele não deve ter notado que estão no escuro.

3 comentários:

Alexsandra disse...

Silvio obrigado pelo elogio. Vindo de você e muito estimulante. Estamos com problema no computador e no bolso:)))

Roy Frenkiel disse...

Grande Silvio, sempre que venho aqui contemplo a genialidade literaria de suas digitacoes.

Salve!

RF

Roy Frenkiel disse...

Silvio, esqueci de dizer, voce tem recebido meus convites pro Reacao?
A proxima quinzena fecha dia 23, ficaria muito feliz com um texto seu. O tema central sao as muralhas, Palestina x Israel, EUA x Mexico. Ou, sobre o desastre da estacao de metro paulistana.

abrax!

RF