19 janeiro 2007

Desce? - 3

Picasso - cubismo


Ser a prima mais nova tem suas vantagens. Há tanto para aprender nesse mundo e ter alguém para lhe guiar é o máximo, diz a garota de catorze anos, segurando o celular e falando com uma amiga de escola, tal qual a prima ao seu lado falando com o namorado. Em frente ao elevador, fala e olha para ela, tentando imitar inconscientemente até o seu jeito de apertar o botão. Saíram a pouco da esteticista que sua prima lhe indicou e a acompanhou. Tem que tirar essas espinhas, ensinava a prima mais velha e ela não tinha dúvidas disso. Chega o elevador e entram como se levassem juntos seus interlocutores nos telefones. Ela se despede da colega e desliga, procurando na parede o sinalizador de andar, que não existe, apenas os botões antigos, onde ela procura e aperta o T. Vê uma senhora idosa, com rosto assustado a tentar equilibrar-se nas sacudidas que vêm depois de fechar a porta. De súbito arranca, mas vai lentamente se deslocando para baixo. Sua prima está tão animada ao telefone, que chega a sentir ciúmes ao ver-se só, mesmo com ela. Em seguida a porta se abre para a entrada de um senhor enorme, de terno, carregando uma pasta, que parece ser de vendedor, quem sabe um daqueles que estão sempre nos consultórios dos médicos, furando filas. Ela recua um pouco para que ele acomode-se melhor, pois quase fica com a pasta presa na porta, o que seria hilário. Mais adiante pára de novo e entram dois rapazes. Ela nota que sua prima força a despedida ao telefone com o namorado, para mostrar-se disponível. Ela conhecia o jeito como ela ajeitava o cabelo e logo aprenderia muito bem como fazer igual. Os dois homens estão falando entre si e parecem com pressa. Nem notaram a prima!, pensa ela surpresa. Em seguida, a porta volta a abrir-se e nota que atrás há alguém que não tinha visto antes, de óculos de sol. Acha engraçado. Acho engraçado o fato dela achar tudo engraçado. Ia comentar algo com a prima quando a porta se abre e os dois rapazes a fecham avisando que está lotado, o que não chega a ser verdade. Há algo de errado com o nervosismo deles, conclui justo no instante que falta luz e o elevador tranca. Escuta a senhora se benzendo e agarra-se ao braço da prima.

Um comentário:

Roy Frenkiel disse...

Grande Silvio! Voce tem o seu estilo bem delineado, e o aprecio sempre. Bom conto!

abrax

RF