28 agosto 2006

Fala, Matilde - 2ª parte


- Raspei a buceta quando casei.
Aquela declaração da avó, no meio do almoço de domingo, quando sua filha lhe alimentava perante os netos e bisnetos foi o primeiro escândalo. Alguns riram disfarçadamente, outros deixaram cair os talheres. A bisneta Aninha, de três anos perguntou:
- Pai, o que é buceta?
A resposta veio pelo apelido que a menina aprendera para rotular sua própria vagina infantil:
- Pepequinha, Aninha – disse o pai quase sussurrando.
- Por que a bisa raspou a pepequinha? – quis saber a pequena.
O pai disfarçou, agachou-se junto ao ouvido da menina e disse para perguntar a sua mãe, mais tarde. A pequena curiosa não quis esperar. A noção de depois para ela era algo vago, que poderia durar uma eternidade, talvez até ficar velhinha como a bisavó.
- Mamãe, por que a bisa raspou a pepequinha? – gritou a menina do outro lado da mesa.
As risadas pipocaram pela mesa, menos no rosto da Dona Matilde, que voltou ao ser estado letárgico, deixando escorrer um pedaço de macarrão pelo canto da boca.

6 comentários:

+ Kazzx + disse...

Caro Silvio,

As duas é que são felizes, podem dizer tudo o que querem, uma porque já sae de tudo e não precisa mais dar satisfação ninguém e a outra porque não sabe nada e quer respostas para tudo....

Abçs

José Alberto Mostardinha disse...

Viva:

..."Pelo pouco tempo que me foi dado conhecer da política brasileira já constatei que a classe que a dirige é culturalmente muito pobre e intelectualmente desonesta."...

Aguardo o teu comentário no EG.
Um abraço,

Dalila disse...

Querido Sílvio, primeiramente quero dizer que fiquei superfeliz com sua indicação no Google Blogs. Rapaz, estar entre os 3 melhores blogs de contos é maravilhoso! Fui até lá pra ver, mas não achei. Li essa sua qualificação em um blog. Parabens MESMO!
Outra coisa, adorei este post. Fiquei imaginando a cena... rss. Pena que a dona Matilde voltou à letargia e não riu também.
Mas, voltando à seriedade, você tem uns finais surpreendentes, como sempre. Gosto disto.
Sabe de uma coisa? Nunca tive coragem pra fazer um blog estritamente de contos. Sempre li que os blogueiros não têm paciência para ler coisas longas. Tem que ser tudo bem rápido, tangencial, facilmente deglutível. Por isso arrisquei poucos contos no meu espaço. Cheguei a fazer um outro blog "Contos que Conto", e coloquei um link no Plenos Pecados. Sabe o que aconteceu? Nadinha. Desisti e fiquei na velha fórmula do "quanto mais leve, melhor".
Agora, motivada pelo que aconteceu com vc, vou arriscar novamente pq tenho vários contos prontos, engavetados por falta de coragem.
É, amigo, você é um exemplo de que quem sabe, escreve; quem não sabe, rabisca e enche a tela de firulas coloridas e adocicadas.
Mil beijos e parabéns novamente.

Saramar disse...

Sílvio, meu mágico preferido, esse encontro da liberdade em completa divergêncai no tempo e, entretanto em sintonia de inocências, só poderia ser engendrado nesta sua mente encantada.
Ficarei por aqui, quem sabe aprendo a ser novamente inocente?

Beijos
P.S. Como descobriu o meu blog escondido (risos)?

Monstrinha disse...

A curiosidade da criança é engraçada, mas letargia da vovó é meio triste...
Acho que sensualidade feminina está sempre tão ligada a belas e sadias mulheres, que quando faz referência de alguma forma a uma senhora tão senil fisica e mentalmente, acaba chocando um pouco.

Dá medo...

Monstrinha disse...

A curiosidade da criança é engraçada, mas letargia da vovó é meio triste...
Acho que sensualidade feminina está sempre tão ligada a belas e sadias mulheres, que quando faz referência de alguma forma a uma senhora tão senil fisica e mentalmente, acaba chocando um pouco.

Dá medo...