16 agosto 2006

Além do Fim - última parte


[Ascensão, Salvador Dalí, 1958]

Os dias se revelavam entre as claridades que se insinuavam pelas frestas, alternando luas, sóis, nuvens. Compreendia as variações do tempo pela luz e pelo vento que lhe batia no rosto. Se aconchegava no calor que ela lhe oferecia sob o cobertor imundo que a aquecia e aliviava o frio das orelhas dele. O cão, testemunhava à distância o amor e, quando dava, vinha lamber-lhe o rosto sem que ele se incomodasse. Ela, de tão feliz que estava, passou a sorrir na rua e chamou a atenção do policial que lhe seguiu até a alcova. Ao deparar-se com o homem lá deitado, não deu tempo para que ela o carregasse para outro lugar. Passou um rádio para a patrulha e logo apareceu uma ambulância para levá-lo dali perante uma multidão de bêbados que saíram dos bares daquela rua, onde as luzes confundem os sentidos dos desesperados. Ela e seu cão ainda correram e choraram atrás do carro e por pouco não foram atropelados no sol do meio dia, já na avenida cheia de restaurantes logo adiante, onde as pessoas a olhavam com cara de escárnio e nojo. Ele foi levado para um hospital caro e, lá, pessoas bem vestidas apareceram e pareceram reconhecê-lo.
Hoje de manhã, no quarto branco e limpo de um hospital, uma mulher de olhos azuis e gelados surgiu ao seu lado, o que provocou-lhe náuseas. O sorriso que ela lhe deu era transparente e vazio, como um falso amor. Em algum lugar da cidade, deixara para trás sua vida e, em seu silêncio, virou os olhos úmidos para a janela e sorriu: finalmente tinha do que lembrar-se.

8 comentários:

Anônimo disse...

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José Alberto Mostardinha disse...

Viva Sílvio:

É isso, nem sempre quem mais desejamos é que aparece a nosso lado.
Ficam as recordações.

Um abraço,

Dalila Flag disse...

Querido Sílvio, além do fim é sempre doído. Não ouso ir até lá. Nem mesmo próximo do fim.Meu imediatismo me impede. Fico por aqui, tangenciando o trivial. É mais seguro. Você tem uma ousadia que quase invejo, mas falta-me coragem de mergulhar tão fundo como vc faz. Talvez eu voltasse em farrapos. Até mesmo imaginar olhos azuis gelados me agonia.
Vc é muito bom nesses contos que são o retrato da miséria humana. Aliás, sempre que releio "Os Miseráveis" sinto a mesma dor.
Beijos, mon ami terrible.

Kafé Roceiro disse...

De arrepiar de emoção ao ler o texto. Há pouco tempo vi "Os Miseráveis" na versão nova com Liam Neeson que está magistral e esse texto me fez lembrar tal miséria. Um forte abraço.

Roy disse...

Engasgado estou, amigo... Engasgado... Obrigado pela emo'cao transpassada.

abrax

RF

+ Kazzx + disse...

CAro Silvio,

Bravo, muito bom, me emocionei...

Abçs

patrickgleber disse...

Grande Silvio,

Estou aqui para parabeniza-lo por sua indicação no Google Blogs.

Gostaria de receber sua visita ao meu blog, levanto nele uma polêmica, veja um trecho do artigo:

"As fotos do presidente cubano Fidel Castro divulgadas para acalmar os nervos daqueles que achavam que ele estaria morto agora são alvo de uma polêmica.

(..) Mas nas fotos ele acabou sendo flagrado vestindo um agasalho da empresa esportiva Adidas."

Veja as fotos no meu blog

www.blogdopatrick.blogspot.com

patrickgleber disse...

Grande Sílvio,

Conforme sua informação fiz a retificação da informação em meu blog sobre a nacionalidade da empresa Adidas.

Grato

www.blogdopatrick.blogspot.com