03 agosto 2006

Além do Fim - 6ª parte


[Sonhos da Madrugada, Salvador Dalí, 1923]

Ele, nu, sem entender aquele jogo de letras e números que ela deixara ao alcance de sua visão, fitava o cão, que lhe abanava o rabo. Seus olhos melhor acostumados com a fraca luz que entrava pelos buracos daquele lugar, puderam reparar no vira-latas que lhe servia de guarda. Era de uma cor amarelada, quase laranja, com alguns sinais brancos encardidos no pêlo. A raça indefinida poderia ter algo de labrador, de pastor alemão, talvez até de cocker. Um cão velho, que lhe lambia o rosto e se deitava sobre seu braço caído que formigava. Voltou os olhos para o pedaço de papel pardo tentando decifrar o enigma, que muito bem poderia ser algo de louco, como ela lhe parecia olhar. Aquele quatro poderia ser uma letra A... Ele ainda divagava sobre o sentido que poderia haver naquilo, quando ela voltou com duas garrafas de água, com um sorriso largo, que apesar do dente ausente, era branco. Enquanto lhe falava coisas indecifráveis, foi tirando a sua própria roupa e mostrou um corpo surpreendentemente bem feito, atrás da sujeira que ela agora tratava de remover na água parda que trouxera. Um aroma adocicado surpreendeu-lhe o olfato. Depois, ela montou sobre ele e foi despejando a água, que escorria pelo corpo sem que ele nada sentisse, além da aflição de estar com uma mulher sobre suas carnes sem tato, como se seu corpo pesasse toneladas e não pudesse mover-se. Foi quando a língua dela invadiu sua boca que seus olhos fecharam e caiu num mundo interior, onde ele tinha tentáculos que a envolviam, onde lhe enroscava pela cintura e flutuava num limbo, pleno de estrelas que cintilavam a sua volta. Manteve-os fechados e deixou que sua boca fosse o seu céu e entregou-se a mulher que lhe acariciava as orelhas e lhe engolia inteiro. Sentiu que o suor lhe escorria da cabeça e se misturava a saliva. Sentiu o gosto do sexo que ela lhe trazia a boca, sentiu que alguma maneira ele lhe correspondia ao desejo frenético que não tinha chão, nem teto, nem tato, nem tino.

6 comentários:

Moita disse...

Silvio

Como se diz no Sertão: ta premêra!

O "Zé de Alencar" ta melhor que o original. Parabéns. Livro pronto falta só finalizar.

1 fraterno abraço

Géh disse...

Silvio.... refaço aqui o convite que fiz em outro blog seu: Quer ser um colaborador da revista www.gehspace.com ?

Seus contos são ótimos. É difícil encontrar bons contistas que combinem com a seção "Amores Urbanos". Contos eróticos encontro em todos os lugares, essa não é a proposta da revista. E sim abordar as diversas neuroses urbanas dos relacionamentos... Topas participar?

Esse é meu email: geh@gehspace.com

Lata Mágica disse...

Oi Silvio,

Estamos aguardando o final.
Toda semana entro na lan-house, gravo os textos em um cd e vejo com Odilene os contos.

Abraços dos amigos da Lata

Willam & Odilene

José Alberto Mostardinha disse...

Viva Sílvio:

Tenho aqui vindo ler os teus sempre interessantes textos.
É sempre um bocado bem passado.

Um abraço,


Nova postagem no EG a merecer o teu comentário.

Grupo da Quinta disse...

Sílvio

Nossa estréia no Recife foi hoje com o espetáculo "O Canto do Teatro 2005 em Portugal. Estaremos no Teatro Arraial às 20:00h (Rua na Aurora no prédio da FUNDARPE), em cartaz aos sábados e domingos do mês de agosto, até o primeiro sábado e domingo do mês de setembro. Temporada de 10 espetáculos.
Esperamos por vocês!

http://grupodaquinta.blogspot.com/

José Alberto Mostardinha disse...

Viva Silvio:

Nova postagem no EG a merecer o teu comentário.