22 setembro 2006

Súbito


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No primeiro segundo, ela olha para trás e vê ainda seu pé descolar-se do parapeito e se orgulha da vontade que ultrapassa a razão e lhe joga à morte, para no instante seguinte, lembrar-se dele sorrindo suado ao encontrá-lo em sua cama com sua filha e sente raiva do cafajeste que trouxe para sua casa e, ao terceiro segundo, sente o ar bater-lhe nos cabelos já grisalhos e mal tingidos pelo desgosto que os remédios já não aplacavam mais, até que no quarto segundo lembrou de seu filho morto ainda criança a mamar-lhe o peito e afagar-lhe o queixo, para depois, no quinto segundo, sentir um medo do nada que viria já que se desapegou das crenças, há muito tempo e, no sexto segundo, lembrou-se da mãe há tanto tempo morta e de seu pai caído bêbado na sarjeta e já estava no sétimo segundo quando seu sexo latejou como se uma nesga de prazer perpetrasse o ar e lhe lembrasse o último desejo que sua carne lhe deu e mergulhou no oitavo segundo em que quis acreditar em anjos que a resgatassem para ver um último pôr de sol, antes de estatelar-se na calçada no segundo final.

5 comentários:

Roy Frenkiel disse...

O senhor eh PHODA ;-)

Nanna disse...

Olá!
Conhecendo teu cantinho, se me permite dizer, de uma delicadeza deliciosa! Parabéns!
Pimentas e chocolates!

Helena de Tróia disse...

Que Matisse belo!


Minha coluna de sábado Arte Incomum teve um atraso brutal. Ainda não sei o que aconteceu. Mesmo assim não poderia deixar de avisá-lo. Beijos

+ Kazzx + disse...

Caro Silvio,

Oito segundos, uma vida inteira, será que vale a pena????..

abçs e parabéns sempre sinceros...

E dona Matilde hein?, poderia ter durado mais uns duzentos anos...

Kafé Roceiro disse...

Que maravilha esse texto, meu amigo! VOcê como sempre com pérolas...