10 julho 2006

Álbum - 2ª parte

Passaram-se algumas semanas quando encontrei a foto na minha gaveta e resolvi procurar por ela. A conhecia muito bem através de Alberto, mas pelas circunstâncias daquele amor e pela distância entre minha cidade e a dela, nunca a tinha visto pessoalmente. Eu poderia ter rasgado aquela foto naquele domingo de sol triste, quando deixei Alberto na soleira da porta da casa simples, onde mais tarde seria apanhado por outros amigos e levado à rodoviária. Poderia ter queimado, mas isso mereceria uma cena folhetinesca, a que eu nunca fui muito apreciador. Preferi entregar o passado a quem por justiça pertencia.
A casa era humilde, o jardim queimado pela primeira geada de maio, o dia cinzento como uma página de Goethe. Não havia campainha, porém a janela estava semi-aberta. À moda do interior, bati palmas. A cortina entreabriu-se o suficiente para ver os cabelos negros de Graça. Ao sair à porta, uma nesga de luz iluminou-lhe e pude conhecer a Maria, cheia de graça. Desconfiada ela aproximou-se.
Não falei nada, apenas estendi a mão e entreguei-lhe a foto. Ela esboçou um sorriso, que logo deu lugar a uma expressão de tristeza. Quando ergueu os olhos em minha direção, eu poderia me afogar naqueles olhos úmidos e morreria feliz. Por infindáveis frações de segundo nos olhamos até que ela me perguntasse como consegui aquela foto. Contei-lhe sobre Alberto, a despedida e da forma como ele me pediu para entregar-lhe a foto. Não falei sobre as outras opções que ele me dera, porque no fundo, pensando muito a respeito concluí que de fato ele me pedia que a entregasse, si o si, como diria um velho bolero castelhano.
Graça me agradeceu e entrou. Eu fiquei ali, embevecido pela presença forte de uma mulher altiva e de coração raso. Sabia que a história deles havia terminado um ano antes, mas me retive a olhá-la entrando na casa e fechando a porta. Não sei por quanto tempo fiquei ali prostrado até que ela voltasse à janela e me perguntasse se tinha mais alguma coisa para dizer-lhe. Fiz que sim com a cabeça só para que ela voltasse até mim e me convidasse para entrar.
Tudo o que Alberto me confessara sobre Graça era pouco para descrever seus gestos, sua voz e a enormidade de sua alma. Voltei mais algumas vezes a sua casa, até que a porta de seu coração rompesse as grandes lajes que Alberto deixara sobre todo o amor que ela tinha em si.
As cartas de Padre Alberto chegavam, mas eu já não as respondia. Falavam das aflições de um povo sofrido, das misérias aceitas como obra de Deus, da seca, dos anjinhos bebês mortos pela fome e pela desesperança de uma gente marcada para sofrer. Contava das agruras de trazer luz às trevas, mas não mencionava uma só palavra sobre o amor adormecido naquela foto ensolarada que me legou. Pensei em contar-lhe sobre o encontro que ele me proporcionou e achei até que ele aprovaria esse amor que em nós brotava, mas temi fazê-lo sofrer, ou, quem sabe, colocar à prova sua vocação. Temi que ele largasse crianças sofridas, tomasse o primeiro jegue e viesse resgatar sua Graça. Com o tempo as cartas foram rareando e, como se houvesse um erro de endereço, acabou por cessarem-se.
Há vinte anos atrás, mulheres de trinta não esperavam mais por padres que lhes abandonavam. Eu joguei todo o amor que armazenei por tantos anos em quem estava pronto para amar. Escrevi poemas, fiz caminhos de pétalas, sussurrei Neruda, e a amei com cada poro de meu corpo destilando o amor que emanava em sua direção. Nunca lhe falei das cartas não respondidas e demos ao nosso primogênito o nome de Alberto.
Os invernos continuaram a gelar as madrugadas do Rio Grande, eu e Graça nos aquecemos todos esses anos, orando para que a felicidade viesse pelos caminhos de Deus, como nos aconteceu. As primaveras se sucederam e trouxeram aromas e recompuseram os jardins sofridos. Nos verões juntamos os meninos e fomos para Tramandaí, Torres, Santa Catarina. Suamos em noites quentes queimando nossos lençóis num fogo que ressurgia a cada instante, uma chama que alimentava de amor nossos dias.

7 comentários:

S. disse...

Lindo!

YoHannah disse...

Muchas gracias por tu enlace, Silvio; y en merecida correspondencia he enlazado a mi Blog los dos tuyos.

Yo también escribo cuentos, por mi blog, los encontrarás por los archivos.

Felicidades por los tuyos.

Un saludo cordial.

Hannah

Santa disse...

Sílvio querido, depois da parada forçada estou voltando ao blog. Aos poucos, mas voltando. Bjs

Blog do Arlan disse...

Fiz um link dos Contos no meu blog para os estudantes que entraem lá possam ler. Um abraço.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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