21 julho 2006

Além do Fim - 2ª parte

Sleep, Salvador Dalí, 1937

No beco onde se escondia para queimar sua pedra, pouca luz entrava, porém o ruído de um corpo se estatelando na rua invadiu e ecoou em cada lata de lixo. Ela levantou a cabeça, largou a folha de papel pardo onde rabiscava qualquer coisa e, ainda zonza, viu o monte perto da entrada do bar que havia fechado há pouco. Seu cachorro levantou suas velhas orelhas e as baixou em seguida. Já não tinha tempo nem vontade de correr atrás de nada. Ficava ali, ao lado dela fitando-a. Levantou-se e foi até lá para ver se ele tinha morrido e se poderia aproveitar alguma coisa do morto. Sem qualquer ordem, seu cão a seguiu. Passou alguns minutos sem que o corpo se mexesse por si. Apenas seus olhos suplicantes moviam para cima e para baixo, para todos os lados.
Era o mesmo homem que ela espiara a pouco do fundo de seu beco, vomitando do outro lado da rua. Estava ali deitado e movia os olhos como se tivesse preso, amarrado. Estava caído de lado e seu vômito escorria com sangue pela boca. Ela não lhe disse nada, ficou fitando-o, andou ao seu redor e ele a seguindo com os olhos, sem mover a cabeça. O cachorro cheirou, abanou o rabo e ela sorriu. Não um sorriso para o homem e, sim, para o animal que balançava a cola para qualquer porcaria.
A rua permanecia vazia naquela madrugada. O carro que atropelara o homem nem freou; seguiu adiante com música alta deixando cheiro de álcool por todo lado.
O velho cão ainda curioso agitado, latiu uma só vez e ela decidiu ajudar o pobre coitado, que parecia mudo e inerte, além de, quem sabe, ter algo de valor que ela pudesse usar para comprar umas pedras. Pegou-o pelos braços e foi arrastando-o para dentro do beco até a entrada do buraco na parede onde ela vivia com o cachorro, oculta atrás de uma enorme caixa de lixo. Ele permaneceu de olhos abertos o tempo todo, o cão rodava, talvez por efeito do álcool para ele, do crack para ela, ou pelo modo banal que os cães têm de se afeiçoarem.

10 comentários:

Raquel disse...

não sei se vc ja leu... ultimamente estou lendo um livro do Saramago e vendo o que vc escreveu do cachorro me lembrei dele, as vezes os animais são tão humanos...mais que amigos... é no minimo curioso...

José Alberto Mostardinha disse...

Viva Sílvio:

Gostei desta visitinha diária ao seu blog.

oba!!! a "coisa" está esquentando lá no Estados Gerais.
Aguardo sua visita e comentário.

Um abraço,

Lata Mágica disse...

Oi Silvio tudo bem!
Gostariamos de conversar com você sobre as camisas do Lata Mágica, o nosso e-mail é:
latamagica@yahoo.com.br

Abraços dos amigos da Lata:

Willam & Odilene

Moita disse...

Silvio

Andei me esforçando muito,
nessa ultima viagem e tive uma recaída.

Não posso passar muito tempo sentado que a coluna grita.
Por isso, não tenho visitado os meus amigos.

O ramancista narrativista está pronto há muito tempo, mas cadê os livros publicados? Mãos a obra.

abraços

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