19 junho 2006

Atrás de seus olhos - Robinson

Meu nome é Robinson, professor Robinson. Sou diretor de um cursinho pres vestibular. Tentei de todo jeito ingressar numa universidade como professor, mas o tempo foi passando e me acomodei. Talvez por ter essas dúvidas dentro de mim, esse medo de enfrentar as coisas que escondo com um ar de austeridade. Antes de vir para cá, passei no supermercado e comprei uma corda. Vou me matar quando chegar em casa.
Foi aqui que troquei a razão pelo instinto. Há cinco meses atrás encontrei um garoto que me aceitou como eu sou. Comprei presentes, ganhei afeto, como nunca havia experimentado. Porém a mãe dele descobriu e o castelo desmanchou-se. Aqui nessa mesa, ela me atirou a jóia que havia dado a ele e me chamou de coisas horríveis, que sei que sou. Só não foi pior porque era uma pessoa da sociedade e não quis denunciar-me para não sujar o futuro do menino. Gosto de meninos, quanto mais novos melhor, e na tentativa de esquivar-me de meus impulsos fui cair na Internet, em salas que preferia nunca ter entrado, onde garotos me esperavam. Não sei que vida prefiro. Não sei porquê tenho medo de tudo, outras vezes não tenho medo de nada. Tenho medo quando não ter medo.
Aqueles meninos ali, são alunos na escola. O loiro tem olhos lindos e uma barba que já se apresenta bem definida, apesar de seus dezessete anos. Ele nunca deve ter imaginado o quanto ele me atrai, até porque nunca eu teria coragem de olhar mais um instante para ele do que ele próprio me olha. A velha senhora passou a pouco por mim e me cumprimentou. Acho que a conheço, talvez daqui mesmo, talvez não. Não me atenho muito às pessoas. Sempre preferi os livros, o cinema e as orquídeas que cultivo no terraço do prédio, mas acabei dando o passo adiante que a vida toda evitei.
A morena chegou. Todos olham para ela. Até eu gosto de olhar seu requebrado, seus olhares lascivos, seu jeito de fêmea no cio. Ela nem olha pra mim. Não devo atraí-la, ninguém se sente à vontade comigo. Fico só, deixo o tempo passar e enquanto isso espero a hora de chegar a noite a vagar a Internet em busca de um encontro virtual, com algum menino. Depois de ceder, não me perdôo, mas uma voz me chama. A minha grande luta é manter-me longe da ação. Por isso, suportei por tanto tempo a solidão.
O homem com o menino é o Anselmo. Não sei se ele lembra de mim. Fui professor dele e agora ele já é pai. Provavelmente vive só, porque sempre o vejo com o menino por aqui. Eu não conheci meu pai. Ele morreu muito cedo e minha mãe nunca superou a sua ausência. Criou-me com a distância que hoje tenho das pessoas. Bonitinho esse menino dele... Se parece com Anselmo quando menino que eu perseguia com os olhos pela calçada... poderia convida-lo para um sorvete e...
Se ele não aceitar o passeio, vou ao cinema. Hoje quero chegar cedo em casa. Não posso me atrasar para o meu fim.

6 comentários:

Santa disse...

Sílvio,

Sentimentos proibidos (ou socialmente proíbidos) descritos, levam acentos mais fortes. Acho que não há diferença entre o AMOR, seja ele Homosexual ou Heterosexual. A diferença ou a qualidade é como o personagem vê seus desejos e relacionamentos. Eu compreendo que há relações homossexuais que são perfeitamente estáveis e comprometidas.

Bjs

Roy disse...

Nao podemos mesmo nos atrasar ao nosso fim...

forte abrax!

RF

Silvio Vasconcellos disse...

Santa, como esse conto é uma construção, permito-me fazer um comentário.

Esse personagem, é mentalmente perturbado. Não foi a questão do homossexualismo que quis abordar. É o pedófilo. Ele circula no nosso meio, visita o mesmo shopping, deseja nossos filhos e vive acuado. Ele está na espreita de uma aventura. A sexualidade, nesse caso, ganha contornos doentios, podendo tanto ser homo ou hetero. Carrega uma culpa que na mente confusa é dominada pelo desejo não satisfeito, pela falta de amor e pelo isolamento social que ele mesmo se impõe.

Santa disse...

Sílvio,

Concordo. (embora acho que existe uma linha tenue entre as duas situações). Com uma diferença no meu endender. Se considerarmos que a pedofilia é uma doença, o personagem, mostra bem essa patologia. Deve ter dificuldade de se relacionar sexualmente com outro adulto. Com os meninos, ele busca perder a insegurança, sente que pode ficar no comando da situação.

Saramar disse...

Oi Silvio.
Raramente leio contos, mas os seus irei ler todos.
É imensa solidão dos que cultivam aquilo que a sociedade condena. Creio que você mostrou bem o comportamento desviante do personagem e como este é dominado por suas paixões doentias, sem entretanto, chocar seus leitores.
Gostei.

Beijos

bb rocamadour disse...

Silvio, gostei demais da história e do formato linkado, que funcionou muito bem! Parabéns por esse belo espaço virtual, um grande abraço.