26 junho 2006

Atrás de seus olhos - Diogo

Estar perto de Rodrigo me deixa sempre tranqüilo, apesar dele não saber o quanto me atrai. Aqui no shopping a gente conversa de tudo. Gosto de saber do que ele gosta, gosto de olhar o que ele olha, gosto de estar onde ele está. Bebendo um refrigerante, escolho o mesmo. Às vezes até compartilhamos a mesma lata, o que me deixa excitado em por meus lábios onde ele pôs os dele: “quer um gole, Diogo?”... se ele soubesse desse beijo transverso...
Estamos nos preparando para o vestibular, mas a mim mais interessa é fazer o cursinho com ele. Conheci Rodrigo no ensino médio e ele nunca percebeu nada além de minha amizade. Certa vez, numa olhada diferente durante uma piada qualquer, achei que ele pudesse estar dando algum sinal para mim, mas nada. Naquela vez, cheguei até a oferecer um baseado, para ver se ele se soltava. Ele nunca falou tanto em mulher como naquele dia e deduzi que era uma esperança vã. Eu teria que contentar-me com os feromônios que ele dirigia a elas, não a mim. Emprestei uns livros do Caio Fernando Abreu e acho que ele devolveu sem ler.
Ficamos ali sentados, rindo de tudo e falando bobagens. Mesmo o diretor da escola, quando nos olha com reprovação passa a ser motivo de nossas risadas. Porém, ele não me engana: aquela solidão e olhar perdido sempre acham os meus. Ele é gay também, mas nunca sairá do armário. Ele é o motivo que eu tenho para abrir-me, mostrar-me. Mas não agora, não estou pronto, além do quê provavelmente isso me afastaria de Rodrigo.
Minha vó chegando... Acho muito bom ter uma vó ativa, que encontra suas amigas. Não precisava ser no mesmo shopping que eu, mas... É aqui que o Rodrigo gosta de vir... A vó Eulália é uma artista. Minha mãe diz que ela é uma artista frustrada, porque meu vô não a deixou trabalhar no teatro, onde ele a conheceu, mas pensando bem ela não parece tão infeliz assim. A não ser hoje, que está apagada, sem a luz que normalmente irradia. Vou falar com ela, perguntar o que aconteceu. O Rodrigo acha engraçado eu conversar com ela no shopping. Ele não a conhece como eu. Ele não sentou no seu colo, não pintou com vovó, não vestiu peruca para brincar de teatrinho como fazemos. Adoro aquela velha!
Opa! O Rodrigo foi olhar para umas meninas e acabou virando refrigerante na minha perna. Vou ter que ir ao banheiro dar um jeito nisso, enquanto a faxineira limpa embaixo da mesa. Rodrigo ainda me segura no braço e paro sentindo o calor de sua mão. Ele me mostra aquela morena que costuma vir aqui, sempre bem vestida. Parece mulher de programa. Na verdade, eu gostaria muito de ter sido tudo diferente comigo. De transar com mulher, de desejá-las, mas... Não é assim... Tem gente ainda que acha isso uma opção. Quem escolheria ser diferente da maioria, que homem teria escolhido desejar outro homem? Essas perguntas carrego comigo e espero amadurecer logo para ter as respostas. Aquele menininho ali com seu pai, provavelmente já sabe o que ele vai gostar. Eu era muito novo quando descobri que nunca amaria uma menina.

7 comentários:

Rosario Andrade disse...

Bom dis Silvio!
Tenho seguido a vida dos seus personagens e deixe-me dizer-lhe... é como estar num filme! Brilhante! A ideia é absolutamente fantastica, dar vida a diferentes personagens e poder sempre ir ler a sua perspectiva da vida. ADOREI!
BJICOS!

Ná Jornalista disse...

Oii...
Vi no seu texto exatamente o título do blog...encontros e desencontros!
Gostei do modo como colocou as palavras...danado ao leitor a impressão de (quase) sentir o que vc quer passar...Muito bom!
Beijos Ná Carvalho

Roy disse...

Ai, seu Silvio, eu comento porque nao consigo nao deixar minha admira'cao a sua arte!

Super abrax

RF

+ Kazzx + disse...

Caro Silvio,

Passei aqui, sem perder uma letra sequer...me emociono com todos os textos...

Abçs

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